Serviço Social está em crise? Desafios atuais da profissão em 2026
Falar em “crise no Serviço Social” exige cuidado.
A profissão não está desaparecendo, nem perdeu sua relevância social. Ao contrário, assistentes sociais continuam presentes em áreas essenciais das políticas públicas e da proteção social.
O que existe, em 2026, é um conjunto de tensões que afetam diretamente a profissão: precarização dos vínculos de trabalho, salários baixos, disputas sobre formação profissional, dificuldades de implementação da jornada de 30 horas, ausência de piso salarial nacional em vigor e ampliação das demandas sociais sobre equipes cada vez mais pressionadas.
Uma profissão ainda fortemente ligada ao setor público
O perfil atual da categoria mostra que o setor público continua sendo o principal espaço de inserção profissional.
O CFESS informa que quase 60% dos assistentes sociais ativos trabalham em instituições públicas. Também aparecem baixos salários, especialmente nos municípios, além de contratações temporárias e outras formas de vínculo precarizado.
Isso significa que o Serviço Social permanece profundamente vinculado à execução de políticas públicas e ao atendimento da população, mas também sente diretamente os efeitos de restrições orçamentárias, terceirizações, contratos frágeis e sobrecarga de trabalho.
A assistência social continua sendo um dos maiores campos de atuação
Em 2026, quase metade dos profissionais que responderam ao levantamento complementar do perfil da categoria trabalhava na Política de Assistência Social.
O CFESS informa que 49,79% dos respondentes atuavam no SUAS, em atividades de planejamento, coordenação, execução de serviços, programas e projetos.
Isso reforça a centralidade do Serviço Social na política socioassistencial.
CRAS, CREAS, unidades de acolhimento, gestão municipal e estadual, serviços especializados e conselhos continuam dependendo fortemente da atuação de assistentes sociais.
Saúde, previdência e educação também ampliam espaços
O Serviço Social mantém presença histórica na saúde e na previdência.
Em 2026, o CFESS retomou diálogo institucional com o INSS para discutir concurso público, organização do trabalho, ética profissional e fortalecimento do Serviço Social na Previdência.
Na educação básica, a Lei nº 13.935/2019 ampliou a inserção de assistentes sociais e psicólogos nas redes públicas de ensino, e o CFESS publicou em 2026 novos subsídios para orientar essa atuação.
Portanto, existe expansão de espaços ocupacionais, mas essa ampliação também exige defesa de atribuições, condições de trabalho e qualificação profissional.
O problema da precarização
Um dos desafios mais sérios da profissão é a precarização do trabalho.
Ela pode aparecer por meio de:
- contratos temporários sucessivos;
- terceirização;
- baixos salários;
- ausência de concursos;
- sobrecarga;
- equipes incompletas;
- exigência de tarefas incompatíveis com as atribuições profissionais;
- falta de privacidade e estrutura adequada;
- substituição de cargos permanentes por vínculos frágeis.
Em 2025, o CFESS publicou a Resolução nº 1.114/2025, atualizando as regras sobre condições éticas e técnicas para o exercício profissional. A norma reforça a necessidade de ambiente adequado, sigilo, autonomia técnica e proteção das condições de trabalho.
A jornada de 30 horas ainda gera disputa
A jornada de 30 horas foi conquistada em 2010.
Mesmo assim, sua aplicação segue gerando controvérsia, principalmente no serviço público estatutário.
Em 2025, o CFESS contestou formalmente entendimento do Ministério da Gestão e Inovação que mantinha restrições à aplicação da jornada especial de 30 horas para servidores federais ocupantes do cargo de assistente social.
Em 2026, o CFESS também acompanha projeto de lei que busca reforçar a obrigatoriedade das 30 horas para toda a categoria, inclusive servidores estatutários.
Isso mostra que uma conquista formal não significa automaticamente implementação uniforme.
O piso salarial segue sendo uma das principais reivindicações
A profissão ainda não possui piso salarial nacional em vigor.
O próprio CFESS informa que a categoria não possui piso nacional e mantém uma Tabela de Honorários Profissionais para trabalhos sem vínculo empregatício.
Em 2026, o piso salarial permanece entre as principais bandeiras de valorização profissional, junto com a defesa da jornada de 30 horas e de vínculos estáveis.
A formação profissional virou outro campo de disputa
A expansão de cursos a distância e modelos formativos aligeirados se tornou um dos principais debates contemporâneos da profissão.
Em abril de 2026, CFESS, ABEPSS e ENESSO reafirmaram posição em defesa da graduação presencial, crítica, ética, legal e socialmente referenciada.
As entidades destacaram especialmente a importância do estágio supervisionado e os riscos de processos formativos remotos ou excessivamente flexibilizados.
Esse debate não é apenas acadêmico.
A qualidade da formação afeta diretamente a capacidade de intervenção profissional em contextos complexos, como saúde, assistência social, justiça, educação e previdência.
O risco de substituição de trabalho profissional por vínculos precários
Em 2026, o CFESS também se manifestou contra o Programa de Residência Psicossocial do CNJ.
Entre os problemas apontados estavam fragilidades pedagógicas, supervisão inadequada e risco de uso de força de trabalho qualificada em substituição a concursos públicos.
Esse tipo de situação mostra que o debate atual não é sobre falta de espaço para o Serviço Social, mas sobre como esses espaços estão sendo estruturados.
Então o Serviço Social está em crise?
A resposta mais correta é: não no sentido de perda de função social ou desaparecimento da profissão.
A profissão continua necessária e fortemente inserida em políticas públicas.
O que existe é uma crise das condições de trabalho e das formas de inserção profissional em muitos contextos.
Também existem disputas importantes sobre:
- qualidade da formação;
- valorização salarial;
- jornada;
- autonomia técnica;
- atribuições profissionais;
- concursos públicos;
- terceirização;
- reconhecimento institucional.
A profissão também se transforma
Ao mesmo tempo em que enfrenta precarização, o Serviço Social amplia espaços.
Além dos campos tradicionais, assistentes sociais atuam cada vez mais em:
- educação básica;
- gestão pública;
- políticas de direitos humanos;
- saúde mental;
- sistema de justiça;
- previdência;
- gestão e planejamento;
- assessoria;
- pesquisa;
- consultoria;
- controle social.
Essa transformação exige qualificação contínua e capacidade de responder a novas demandas sem perder os fundamentos éticos e técnicos da profissão.
Conclusão
O Serviço Social não está “acabando”.
Também não é correto ignorar os problemas que a categoria enfrenta.
Em 2026, o desafio central é garantir que a ampliação de espaços de trabalho seja acompanhada de:
- vínculos estáveis;
- concursos públicos;
- remuneração adequada;
- jornada de 30 horas;
- piso salarial;
- formação de qualidade;
- condições éticas e técnicas;
- respeito às atribuições profissionais.
A profissão permanece necessária porque as desigualdades, violações de direitos e demandas por políticas públicas continuam presentes.
A questão atual não é se o Serviço Social tem futuro.
É em que condições os assistentes sociais poderão exercer sua profissão com qualidade, autonomia e valorização.
Fontes e referências
Texto originalmente publicado em janeiro de 2011 e atualizado em setembro de 2026.
Comentários
Postar um comentário